“Segundo Simone e Sartre amor libertário é amor incondicional, outrora é amor possessivo.
Simone e Sartre construíram a mais bela lenda filosófica de amor de todos os tempos. Embalados na elevação intelectual, essa relação durou cinqüenta anos, essencialmente definida em termos de liberdade e transparência.
Baseado no dualismo Kantiano de verdades necessárias e verdades contingentes, Sartre afirmava que o amor entre eles era um amor necessário, convindo que conhecessem amores contingentes, ao passo que, acredito de fato, somente os tornavam mais unidos em seus emaranhados de eternas conquistas e companheirismo nas superações intelectuais.
Os apelos da sociedade moderna, seguimos a olhos cerrados um amontoado de preceitos pouco dialéticos, cujos ditos por moral e aceitação social, nos deixando à mercê do esquecimento sobre os verdadeiros valores que nos tocam.
O verdadeiro amor não é moral e sim ético, o mesmo existe em liberdade, com maturidade suficiente para evitar os desgastes que reduzem a existência em possessividade.”
Conheceram-se aos 19 anos de Beavouir, onde ela adere a corrente filosofica do Existencialismo criada por Sartre. Ambos admitiam que a boa condiçõa financeira facilitou a individualidade do casal, definido isso por uma influencia mutua, osmose era a decisão algo comum aos dois. Inclusive em suas obras.
Uma relação que envolvia reciprocidade de críticas agudas e profundas, bem como de conselhos práticos. Sartre se ressentia pela exclusão dos homens nos movimentos feministas. Simone rebatia, alegando que esses jamais pensariam como as mulheres, inclusive o próprio Sartre. Algumas vezes ela o acusou de não partilhar nas entranhas das causas feministas. Sartre tinha a visão de alguém que via pessoas queridas serem objeto de tratamento desagradável. Admitia que os homens tratavam as mulheres como o “segundo sexo”, reconhecia a necessidade do movimento feminista. Contudo Simone declarou, depois, a importância da campanha que Sartre fez com os amigos do jornal Libération, ao empregarem mulheres na redação, se ocuparem dos problemas femininos, como o aborto, e do próprio Sartre tentar curar seus camaradas do machismo.
Simone de Beauvoir rejeita a idéia de uma alterité, ou seja, de uma superioridade das mulheres. É nesse ponto, talvez, que decepcione as feministas radicais. Numa entrevista, ela fala da sua dependência financeira em relação a Sartre, na época em que escreveu justamente O segundo sexo. Mas assegura que isso não a perturbou, assumindo que ocasionalmente não poderia escrever se Sartre não a ajudasse financeiramente. Também foi criticada por ceder às vezes dos seus pontos de vista por causa de Sartre, ou por entrar na política por influência dele. Ambos tinham por certo que sexo e amor eram coisas diferentes e, às vezes, até incompatíveis.
Para Sartre e Simone, uma pessoa poderia amar infinitamente outra e ter sexo com outra (ou outras), sem que isto necessariamente contaminasse a relação. Ninguém pode ser dono de ninguém, e nem ser propriedade exclusiva. Por isso mesmo, a relação mais saudável para eles, naturalmente, era a mais aberta, mas sem qualquer banalização. Todavia, sabia-se que a vida sexual de Sartre e Simone de Beauvoir deixava a desejar.
Ela admitia que Sartre era um homem pouco libidinoso. Afirma, no entanto, que isso era irrelevante, fazendo sempre uma apologia às outras identificações que tinham em comum. Dizia ainda que a sexualidade poderia ser uma cilada pavorosa, em que as mulheres correriam o risco de encontrar uma falsa felicidade, que as tornaria seres oprimidos pelos homens.
Longe de ser uma versão feminina da mulher que se contenta apenas com o amor, Simone parecia viver no viés da lógica machista, separando amor de sexo e buscando em outros homens a satisfação sexual que Sartre não lhe proporcionava.
Ele, por outro lado, definia sua relação com ela em termos da modalidade kantiana: enquanto seu relacionamento com Simone de Beauvoir era necessário, com outras mulheres seria contingente. Se pensarmos que o contingente é da ordem do acidental, podemos supor que a relação com outras mulheres é que era da ordem do desejo, por ser o desejo estruturalmente acidental. Teria sido Simone algum dia o objeto de desejo de Sartre? Ao definir a união dos dois nesses termos kantianos, Sartre não colocaria aí mais uma discussão sobre o casamento? Haveria em essência um contraponto entre casamento e relação de desejo? Parece-nos que a relação Sartre-Simone dissocia esses dois aspectos.
O desejo poderia até ser condição necessária, mas não suficiente para sustentar um casamento, falando agora do ponto de vista da lógica aristotélica. Poderia ter sido esse o segredo da durabilidade do projeto de Sartre e Simone, a noção clara para os dois desse desmembramento entre matrimônio e desejo, ter sido esse o essencial pacto de verdade entre os dois. Um casamento osmótico como diria ela, das entranhas, porém libertado das artimanhas e armadilhas que passionaliza, que fragiliza, que corrói as relações afetivas. Fazer essa escolha é uma questão de coragem, não pelo fato de arricar-se viver apenas uma relação aberta, mas confiar, acreditar que amizade, cumplicidade, identificações, são condições suficientes para sustentar um projeto de vida a quatro mãos.
Eis aí a herança polêmica que essa parceria deixou como uma interminável discussão sobre um conceito satisfatório que defina um relacionamento que poderia ser nomeado como bem sucedido.
“Os filósofos Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ficaram juntos desde o ano em que se conheceram, 1929, até a morte dele, em 1980, e se fizeram "cobaias" de suas próprias teorias sobre o que entendiam por relacionamento amoroso livre. "Entre nós, trata-se de um amor necessário; convém conhecermos amores contingentes", disse Simone no auge do romance entre os dois”. (Istoé Independente – Reportagem “Amo, Logo existo” )
“Sartre e Simone estão apaixonados, entretanto, em vez de pedi-la em casamento, ele lhe propõe um pacto no qual monogamia e mentira não teriam lugar. Sartre acredita que antes de serem amantes, eles eram escritores, e como tal precisariam conhecer a fundo a alma humana, multiplicando suas experiências individuais e contando-as, um ao outro, nos mínimos detalhes. Entre Simone e Sartre o amor seria necessário, com as demais pessoas, seria contingente. Beauvoir aceita o pacto, pois ele está de acordo com suas próprias convicções”. (Biografia de Simone de Beavouir)
Fernanda Montenegro fez um monologo baseado nas cartas de Jean-Paul Sartre e Simone de Beavouir.
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